voz-prece

aconteceu com meu avô.
ele trabalhava nas máquinas de uma indústria de cimento, mas era projetista de cinema e ferreiro nas horas vagas.
dizem que fazia portões lindos, trabalhava lindamente com ferro fundido.
nunca vi uma peça ou foto.
como ele já tinha partido quando eu nasci, não tenho memória alguma sobre sua história, apenas as contadas pela sua filha, minha mãe.
minha mãe se dedicou a vida toda a ser mãe. período integral mesmo, de cinco.
além de preparar nosso café, deixar nossa roupa cheirosa e moldar nossas ideias, a mamãe canta.
canta desde sempre, desde que ela tem lembrança. e a voz dessa mulher… a voz dela é uma epifania.
e não havia registro desse hino que ela entoa. nada, nadinha.
até hoje.
para não repetir o tropeço que aconteceu na biografia do meu avô, eu decidi registrar a voz da minha mãe. menos por isso, na verdade, e mais para prestar um tributo à arte, à memória e a ela, minha musa e amiga de longa data.
o registro é simples, é feito com amor, é amador, enfim (valeu mais uma vez, Giovana!).
ela merecia a Sala São Paulo e sua orquestra, mas é que não deu tempo de combinar com eles.
com vocês, Vandete Cerqueira e sua voz-prece.

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