texto sem sentido

imagina assim: começam a ser reportados casos de pessoas perdendo o olfato. algumas, depois outras, e de repente todo o mundo. é uma epidemia. primeiro eles se desesperam – e se perdermos outros sentidos? mas a esperança é que a doença atinja apenas os sentidos químicos – porque se perdeu o olfato, a população perdeu também o paladar.

a vida segue. as pessoas se acostumam.

a crítica gastronômica dos restaurantes – pobres restaurantes! – passa a descrever os pratos como crocantes, esponjosos, quentes, gelados. com a perda da capacidade de sentir cheiro, aos poucos as pessoas também vão perdendo a memória.

agora imagina um povo sem memória.

é triste, ao mesmo tempo emocionante, observar como as pessoas passam a viver sem sentidos; ver o que passa a ter sentido. em pouco tempo começa outra desgraça: seguida de uma crise de fúria, um ataque de ira, vem a perda da audição. vem o silêncio. o governo aconselha aos surdos ficarem em casa. o cenário já é apocalíptico. mas piora.

porque desce a escuridão.

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assisti esse filme numa noite fria, sozinha. chama-se perfect sense. comecei a escrever sobre ele e já nem sei por quê.

imagem_ rosangela rennó