voz-prece

aconteceu com meu avô.
ele trabalhava nas máquinas de uma indústria de cimento, mas era projetista de cinema e ferreiro nas horas vagas.
dizem que fazia portões lindos, trabalhava lindamente com ferro fundido.
nunca vi uma peça ou foto.
como ele já tinha partido quando eu nasci, não tenho memória alguma sobre sua história, apenas as contadas pela sua filha, minha mãe.
minha mãe se dedicou a vida toda a ser mãe. período integral mesmo, de cinco.
além de preparar nosso café, deixar nossa roupa cheirosa e moldar nossas ideias, a mamãe canta.
canta desde sempre, desde que ela tem lembrança. e a voz dessa mulher… a voz dela é uma epifania.
e não havia registro desse hino que ela entoa. nada, nadinha.
até hoje.
para não repetir o tropeço que aconteceu na biografia do meu avô, eu decidi registrar a voz da minha mãe. menos por isso, na verdade, e mais para prestar um tributo à arte, à memória e a ela, minha musa e amiga de longa data.
o registro é simples, é feito com amor, é amador, enfim (valeu mais uma vez, Giovana!).
ela merecia a Sala São Paulo e sua orquestra, mas é que não deu tempo de combinar com eles.
com vocês, Vandete Cerqueira e sua voz-prece.

engasgo

o divino em mim se manifesta na garganta.
é onde tudo acontece.
se feliz, uma comichão,
irritada, um facão,
emocionada, um vulcão.
(não era intencional sair rima.)
o que passa é esse período mesmo, e vou falar:
tá mexido esse rio que sou.
começa tranquilo, ameno.
e depois um sem-fim de corredeiras:
ver o gil magro e inchado ao mesmo tempo.
ver meu pai com músculos fracos,
minha mãe com saudade de bordar por ter as mãos inflamadas
mas cantando sempre, aquele sopro com cheiro de mãe.
e a voz da etta james na outra noite, um louvor e novamente minha garganta coça.
então celebro a nova escola do joão,
novas aulas da fernanda,
as colagens todas dessa travessia.
mas agosto chega, tem summer olympics, ó que alvoroço de abertura
preciso ouvir uns “até que fizemos bonito”
(…)
minha garganta arde, fica em chamas.
se descobre toda uma indignação que vinha tentando cobrir
fazendo força para disfarçar
uma ira de ver os que acham que o Brasil é menos
enquanto eu sei, eu sei de forma ancestral
que ele é mais.
por que a pira olímpica faz isso,
por que?
por que os juízes não promovem justiça?
por que tem horas que eu só queria gritar até esgarçar
e ficar como naqueles sonhos terríveis
que precisa voz mas ela não sai.
que a garganta falha.
minha prece – prestem atenção, deuses
emana da garganta,
habita nela
e é por ela.

walken wild

quando penso em Christopher Walken penso em A lenda do cavaleiro sem cabeça.
e de sua passagem surreal em Pulp Fiction (ele guarda o relógio no c* por 2 anos).
mas também me lembro dele como contador de histórias.

aqui você ouve o maluco lendo o livro Onde vivem os monstros (Where the wild things are, de Maurice Sendak, escritor e ilustrador americano).
por sua vez, este livro virou um filme lindo, do Spike Jonze… mas isso é uma outra história.

 

imagem_ bro council