ali babá e os 40

o que é, na verdade, fazer 40?

é olhar para o futuro? é pegar uma cadeira de praia, sentar relaxada e repassar o passado? ou tomar uns goles de água, contemplar o agora e agradecer que chove em todo solstício?

nunca um mistério tão grande me acercou assim. nunca um dezembro me fez tremer, literalmente tremer como este. outros teores, nenhuma teoria. escavações sem plano, sonhos balançando como roupas no varal. o que pertence, o que contém, quantas bifurcações cabem, qual o nível de açúcar, que beijos resistem.
que timbre tem uma sensação, como medir o tanto que vibra? que eco ainda não voltou?

sei pouco, vejo apenas os presentes:
palavras de galeano, folhagens desenhadas, entidades das profundezas do mar.
música que cantamos juntos.
papéis, mapas, uma mapoteca secular.
um copo cheio de minas gerais – sempre ela, um sopro vindo de onde um dia ainda vou voltar.
uma ceia sem hora pra terminar.
palavras e sonhos anotados. a lembrança que desejo bom mesmo seria entender toda e qualquer língua.
não me canso, não me cansarei, não posso parar de querer.
querer bem. querer e sonhar.

 

sagitta

estava conversando com uma amiga esta semana sobre inferno astral.

ela me disse que nós, os incautos,  o chamamos assim pois é um momento de fato confuso, porém, o que acontece de verdade é que, ao nos aproximar do 12º mês do nosso ciclo, mergulhamos num período de mistério. achei intrigante isso.

a sensação é mesmo esquisita – às vezes quero gritar (e grito sozinha, na minha bolha ford, na marginal pinheiros), outras quero abraçar forte o amigo que me escreve no momento exato que estou pensando nele. plim! e tem momentos que sinto um abandono ancestral, e choro no escuro. vai saber. que confortante foi colocar nome nisso e chamar de mergulho no mistério. por que mistério pra mim é como um céu estrelado, um azul escuro muito muito escuro cheio de olhos me observando.

e esse lance de sagitário. entendo quase nada e acredito em quase tudo. só que acho um glamour quando me perguntam: “que signo você é?” e eu respondo: s a g i t á r i o. como o Jim, que cantava de costas. que cantava com aquela voz dele, de costas.

na origem, a palavra sagittarius, em latim, significa arqueiro, relativo a flechas; sagitta = flecha, seta. na astrologia, o símbolo do arqueiro é baseado no centauro, criatura mitológica com cabeça, braços e torso de ser humano e corpo e pernas de cavalo. na anatomia, diz-se sagital o plano que divide o corpo em metades esquerda e direita a partir de um corte vertical reto. para os mutantes, sagitarius é uma canção mucho loca. qualquer horóscopo vai dizer que pessoas regidas por esse signo adoram liberdade  e são sinceros exagerados. então tá.

21 de dezembro é um solstício, que palavra linda essa. é o dia mais longo do ano (com a noite mais curta) e início do verão no hemisfério sul. e tudo oposto no norte. gente e bicho, esquerda e direita, verão e inverno. se tudo fosse simples assim.

em um 21 de dezembro morria Nelson Rodrigues, aquele escritor que disse o adulto não existe – o homem é um menino perene.

eu concordo. a cada 21/12 eu me sinto mais menina.

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