ali babá e os 40

o que é, na verdade, fazer 40?

é olhar para o futuro? é pegar uma cadeira de praia, sentar relaxada e repassar o passado? ou tomar uns goles de água, contemplar o agora e agradecer que chove em todo solstício?

nunca um mistério tão grande me acercou assim. nunca um dezembro me fez tremer, literalmente tremer como este. outros teores, nenhuma teoria. escavações sem plano, sonhos balançando como roupas no varal. o que pertence, o que contém, quantas bifurcações cabem, qual o nível de açúcar, que beijos resistem.
que timbre tem uma sensação, como medir o tanto que vibra? que eco ainda não voltou?

sei pouco, vejo apenas os presentes:
palavras de galeano, folhagens desenhadas, entidades das profundezas do mar.
música que cantamos juntos.
papéis, mapas, uma mapoteca secular.
um copo cheio de minas gerais – sempre ela, um sopro vindo de onde um dia ainda vou voltar.
uma ceia sem hora pra terminar.
palavras e sonhos anotados. a lembrança que desejo bom mesmo seria entender toda e qualquer língua.
não me canso, não me cansarei, não posso parar de querer.
querer bem. querer e sonhar.

 

beirando o ano

na beirada do ano eu olhei minha família e me vi em mil folhas.
contemplei o atlântico e ouvi barulhos de pensar em planos futuros.
eu vi peixes listrados duplicados de tamanho através daquele efeito amplificador das lentes,
senti meu corpo tremular na água salgada e meu olho ardeu como gengibre.
eu mandei manipular fórmulas, e vi me manipularem na minha cara e sem pudor, sem nem poesia.
eu deixei de encarar multidões, deixei de estudar aulas e de exercitar músculos, eu deixei só para ver como é.
arrumei prateleiras e cantei palavras inventadas.
eu troquei coisas de lugar e acordei lembrando de sonhos – os sonhos insistem em me banhar de estrelas.
li dois livros entre as estradas interestaduais, e comecei outro, e nesse avisto as veredas.
eu olhei fotos de mulheres vulgares e fiquei com vontade de ser uma delas.
quero muito apalpar isso e aquilo que não sei
quero histórias.