minha farra minha opinião

não é que o ano tenha começado na semana passada, mas é que parece. não é que não trabalhei, não viajei, não sofri, ri e chorei de janeiro a 11 de março de 2019. não, não é isso. aconteceu um tanto enorme de coisas, mas agora a rotina se estabeleceu.
e olhando para ela, fiz as contas: este ano passo a ter seis aulas semanais e virei aluna novamente. aulas de canto, de arte-educação e de poesia. senti um prazer enorme quando, numa conversa de quintal, compreendi que apesar das dores, da tormenta de ser testemunha e integrante de uma sociedade enferma, eu sigo fiel aos meus ideais. o gozo foi ainda maior quando me dei conta que recebo esses saberes todos de graça.
não sei explicar a sensação, sinto como um batida de tambor com tom de vitória. luta cotidiana, vitórias diárias, uma cadência assim tu-tu-páh – de que sigo resistindo. dá para colocar em som tudo que se sente? gritar sem ser estridente, ritmar palavras novas aprendidas, descobrir harmonias adormecidas e rimar coletivamente. me deixem cantar, eu quero cantar até o fim, disse elza. musa sabedora de tantas coisas.
a resistência se faz a cada nascer de sol. a resistência se faz assim, assim não sei como, assim no caminhar.

viver colando [palavras]

busco vários motivos para viver colando. um deles é o texto. palavras me motivam. quis brincar com palíndromos, essas palavras ou frases que podem ser lidas da direita pra esquerda ou da esquerda para a direita. estudando o palíndromo, descobri uma técnica literária chamada escrita constrangida, o que, pode acreditar, fez esquentar minhas maçãs do rosto. mas isso é assunto para outro texto.

aqui as colagens para os palíndromos luz azul e assim a aia ia à missa (atribuído a Millor, mas vai saber) – a qual eu imaginei indo rezar vestindo flores. a última colagem escorregou e entrou, embora não pertença à ideia de se manter a mesma de trás pra frente.

tem também uma intenção de figura e fundo da imagem, além da direita pra esquerda da palavra. e terra e água. e luz e sombra. e um vício insistente de observar texto e contexto. e eu preciso confessar que gosto de vícios.

 

 

eu digo NÃO

a princípio emudeço, empalideço, perco a fome, a orientação
mas reajo e digo não
não à história
não à ditadura
não à mentira
não à manipulação.
eu digo basta aos desvios,
aos conluios,
aos esquemas, trapaças, mecanismos.
eu digo chega de miopia,
de dissimulação,
de exceções.
grito não a juiz parcial
imprensa parcial
mente parcial
gente parcialmente enfurecida;
chega de pacto,
de supremo, de tudo,
chega de acelera,
de usurpação da bandeira,
de camarote vip,
de fechamento de escola.
chega de narrativas deturpadas.
eu preciso dizer chega também
aos novos-ricos, aos que pensam ser diferenciados
aos que pensam que o esquema os beneficia
eu preciso dizer acordem, estúpidos
não é sobre vocês:
é sobre justiça
é sobre igualdade
é sobre liberdade.
é sobre todos nós.
não tem divisão,
lado,
não tem verde-amarelo que seja seu
ele é nosso.
não, mil vezes não à segregação,
à falta de bom senso
a tudo isso e mais um pouco do que a gente se tornou.
eu digo não ao sono profundo de ideias
eu grito não, repetidos nãos à falta de abertura.
não à ditadura, porra.