escrever memórias

entre janeiro e fevereiro deste ano participei de uma série de encontros da oficina de escrita da memória, realizada pela querida Giselle Rocha no Museu da Pessoa.

depois da experiência de dividir memórias no círculo de histórias, todos redigem, todos editam. ao final, temos um livro, o qual ilustrei a capa.
lá estão histórias sobre a infância, a família, o amor e sobre ser.

meu texto, como microcontos nascem, conta de uma memória recente, uma memória que está ainda sendo desenhada e, espero, defina meu ser. meu ser-estar nesse espaço-tempo.

 

 

texto sem sentido

imagina assim: começam a ser reportados casos de pessoas perdendo o olfato.

algumas, depois outras, e de repente todo o mundo. é uma epidemia.

primeiro eles se desesperam – e se perdermos outros sentidos?

mas a esperança é que a doença atinja apenas os sentidos químicos – porque se perdeu o olfato, a população perdeu também o paladar.

a vida segue. as pessoas se acostumam.

a crítica gastronômica dos restaurantes – pobres restaurantes! – passa a descrever os pratos como crocantes, esponjosos, quentes, gelados.

com a perda da capacidade de sentir cheiro, aos poucos as pessoas também vão perdendo a memória.

agora imagina um povo sem memória.

é triste, ao mesmo tempo emocionante, observar como as pessoas passam a viver sem sentidos; ver o que passa a ter sentido.

em pouco tempo começa outra desgraça: seguida de uma crise de fúria, um ataque de ira, vem a perda da audição. vem o silêncio.

o governo aconselha aos surdos ficarem em casa.

o cenário já é apocalíptico.

mas piora.

porque desce a escuridão.

***

assisti esse filme numa noite fria, sozinha.

chama-se perfect sense.

comecei a escrever sobre ele e já nem sei por quê.

 

imagem_ rosangela rennó