escrever memórias

entre janeiro e fevereiro deste ano participei de uma série de encontros da oficina de escrita da memória, realizada pela querida Giselle Rocha no Museu da Pessoa.

depois da experiência de dividir memórias no círculo de histórias, todos redigem, todos editam. ao final, temos um livro, o qual ilustrei a capa.
lá estão histórias sobre a infância, a família, o amor e sobre ser.

meu texto, como microcontos nascem, conta de uma memória recente, uma memória que está ainda sendo desenhada e, espero, defina meu ser. meu ser-estar nesse espaço-tempo.

 

 

pelas veredas de guima

nonada.
Guimarães tem hora. a minha chegou.
eu ainda não era ainda.
foram oito meses de travessia.
2/3 do ano atravessando os grandes sertões, conhecendo cada mato, planta e buritizal das gerais.
andei com jagunço, ri de bobéias, pitei olhando a lua.
conheci das coisas simples e das profundas com os catrumanos, dansei em encruzilhadas frias. vi o diabo pela greta, mas tive certeza que vi ele sim.
pensei muito naquele senhor ouvinte.
o senhor sabe o que o silêncio é? é a gente mesmo, demais.
aprendi a respeitar Hermógenes.
parava de ler por uns tempos, para desendoidecer de tanta prosa poesia profunda travestida de simpleza. nessas horas era eu que caçava cobertor pra me cobrir o friúme na alma. pelejei para entender algumas passagens que ainda agora não entendo, e outras, sinto passarem dentro de mim como um fiapo de rio, tranquilo de seu caminho, límpido, líquido, natural.
ser forte é parar quieto, permanecer.
mais que apreciar a sofisticação rústica de Tataranas e Diadorins e compadre meu Quelemém, passei a olhar – olhar não, sentir a língua com mais bondade, acho que é isso, ou outra coisa que não sei precisar ainda. permitir, apreciar, abrir lugar para uma fala que existe e que tem espaço, sim.
e que não tem erro, não.
como é que foi para você quando adentrou as veredas?
travessia.

mais poesia, por favor

 

nova parceria com a Socialista Morena – que agora cresceu, está de cara nova e cool e linda, mais morena que nunca!

desta vez ilustrei um poema do Airton Bovo:

Matemática
A escritura do terreno,
a mensalidade da escola das crianças,
o cheque que não foi,
o telefonema para falar do advogado e do contador.
No lugar da emoção, uma conversa tática.
Do nosso amor o que restou é matemática.

este e outros poemas estão sendo lançados em Portugal em livro do mesmo nome.
leia-os aqui.