faltam palavras

sabe, hoje eu vivo do que escrevo.
esse é meu ofício, meu prazer também.
e não estou conseguindo escrever sobre o que tenho testemunhado – essa situação toda mesmo, estou falando das trevas, dos conluios, dos atalhos políticos e éticos de uma nação inteira.
não me considero muito capaz porque só me vem uma palavra: mofo.
é, eu sinto até o cheiro.
posso percebê-lo nas dobras, nas rugas dos deficientes que estão a minha volta.
a maioria é surda e engasgada de si, não consegue nem ouvir a resposta à saudação, quando há saudação porque geralmente chove alaga inunda racha estoura escapa transborda de histórias próprias e vazias, ornadas de solidão.
um milhão de pessoas sozinhas, mofadas e encardidas é o que vejo.
mofadas em seus carros blindados, mofadas em suas roupas aparentemente chiques que escondem etiquetas de origem obscura com costuras mal feitas. discursos mofados, pegajosos. filhos mofadinhos, escolas mofadas, aplicativos mofados, máquinas com cápsulas mofadas.
jantares cheirando a mofo, estradas com mofo no acostamento.
paredes inteiras condenadas a ruir nas organizações, todas mofadas de cima a baixo. obras craqueladas de mofo, embargadas pelo senhor doutor do gabinete.
dentes esverdeados de mofo, hálito mofado, diplomas cobertos por uma película de mofo.
jornais esfarelando em cada virada de página, corroídas pelo mofo.
tem mofo pairando até sobre a copa das árvores no Ibirapuera.
só vejo isso. isso é o que vejo.
e sinto minha visão – coitada, já passou até pela intervenção de um laser quente pontiagudo – turva, indefinida. possivelmente cheia, ela também, de mofo no cristalino.
não me sinto parte da turma dos deficientes, não acredito em verdades absolutas. não quero o retrocesso, mas tampouco carrego uma bandeira pelas ruas ou tenho tatuados gritos de luta na garganta. nada.
não sinto o cheiro de mofo no meu corpo, mas também não sou secundarista ou ativista.
choro sentada na minha cadeira antiga, olhando para a parede, perdida.
a saída seria trocar a praga do mofo que vejo em toda parte por uma outra forma de vida.
algo esguio, com galhos e folhagem, que subisse pelo muro e elevasse-me daqui, do meu próprio sentimento de estagnação.
da estagnação de uma era para uma era de elevação.
para uma nação elevada.
que venha. te espero.
sua,
ap

ps. ou troque tudo por arre, estou farto de semideuses! faz favor, releia poema em linha reta do fernando pessoa deuso. muso eterno. e durma bem.

 

imagem_ pessoasempre

gondrybutions

minha intenção era falar do clipe da nova música do Chemical Brothers – Go.

daí vi uma paródia de Taxi driver.

e então assisti o trailer de um documentário animado sobre Noam Chomsky chamado Is the man who is tall happy?

e tem muito, muito mais na mente de Michel Gondry – ele fez aquele filme em que o Jim Carrey não está irritante, Brilho eterno de uma mente sem lembranças – tá lembrado?

espia só:

Go

Taxi driver

Is the man who is tall happy?

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

site do cara

 

santé!

imagem_ youtube

ideias são como peixes

David Lynch é um gênio das imagens e da imaginação.

no livro Catching the big fish, ele fala sobre sua visão das coisas e seu processo criativo

espia uma animação de 15′ com a voz do próprio artista aqui.

e sim. o cabelo dele é sensacional. agora, suas ideias. suas I D E I A S.

 

 

imagem_ brain to pixel