crap noir

projeto com a parceira de crime Giovana Pasquini:
crap noir, livro experimental dobrável de fotografia. fotos dela com conto meu.

aqui o dito conto:

– Cadafalso.
Ao dizer a senha, a porta se abriu.
Começou a descer os degraus.
Dava para sentir o gosto oxidado do escuro, mais pra baixo a escada o conduzia.
Teve a mesma sensação ruim de quando lhe pediram para encontrar a garota.
O cheiro que subia era a confirmação.
E também o gato da tarde anterior – aquele gato que desfilou pros seus olhos na estação. Maus presságios, como chapéu em cima de uma cama. Ele aprendera a enxergá-los.
Encontrou salas. Não, eram mais como salões – pias, banheiras, cheiro de urina.
Ouvia músicas, gemidos, sons incompreensíveis.
E sempre o cheiro ocre.
Havia pessoas, mas não precisou palavra.
Ele a encontrou.
Sua pele já possuía aquele aspecto de peixe pescado há dias.
Por um momento não soube o que fazer.
Dias depois ela foi encontrada no container de lixo.
Não identificaram o que ou quem causou sua morte.
O caso foi encerrado.

 

 

texto sem sentido

imagina assim: começam a ser reportados casos de pessoas perdendo o olfato.

algumas, depois outras, e de repente todo o mundo. é uma epidemia.

primeiro eles se desesperam – e se perdermos outros sentidos?

mas a esperança é que a doença atinja apenas os sentidos químicos – porque se perdeu o olfato, a população perdeu também o paladar.

a vida segue. as pessoas se acostumam.

a crítica gastronômica dos restaurantes – pobres restaurantes! – passa a descrever os pratos como crocantes, esponjosos, quentes, gelados.

com a perda da capacidade de sentir cheiro, aos poucos as pessoas também vão perdendo a memória.

agora imagina um povo sem memória.

é triste, ao mesmo tempo emocionante, observar como as pessoas passam a viver sem sentidos; ver o que passa a ter sentido.

em pouco tempo começa outra desgraça: seguida de uma crise de fúria, um ataque de ira, vem a perda da audição. vem o silêncio.

o governo aconselha aos surdos ficarem em casa.

o cenário já é apocalíptico.

mas piora.

porque desce a escuridão.

***

assisti esse filme numa noite fria, sozinha.

chama-se perfect sense.

comecei a escrever sobre ele e já nem sei por quê.

 

imagem_ rosangela rennó

wim wenders pics

o cineasta alemão Wim Wenders – dos clássicos e classudos Asas do Desejo e Paris, Texas também é fotógrafo e acaba de estrear uma exposição fotográfica em Berlim, Time Capsules. By the side of the road.

são imagens de seu país natal e da América do Norte.

– quando fotografo, procuro por paisagens, pessoas, histórias, ele diz.

contar histórias, que belo ofício.

espia outros trabalhos fotográficos de Ernst Wilhelm Wenders em wim-wenders.com.