escrever memórias

entre janeiro e fevereiro deste ano participei de uma série de encontros da oficina de escrita da memória, realizada pela querida Giselle Rocha no Museu da Pessoa.

depois da experiência de dividir memórias no círculo de histórias, todos redigem, todos editam. ao final, temos um livro, o qual ilustrei a capa.
lá estão histórias sobre a infância, a família, o amor e sobre ser.

meu texto, como microcontos nascem, conta de uma memória recente, uma memória que está ainda sendo desenhada e, espero, defina meu ser. meu ser-estar nesse espaço-tempo.

 

 

viver colando [palavras]

busco vários motivos para viver colando. um deles é o texto. palavras me motivam. quis brincar com palíndromos, essas palavras ou frases que podem ser lidas da direita pra esquerda ou da esquerda para a direita. estudando o palíndromo, descobri uma técnica literária chamada escrita constrangida, o que, pode acreditar, fez esquentar minhas maçãs do rosto. mas isso é assunto para outro texto.

aqui as colagens para os palíndromos luz azul e assim a aia ia à missa (atribuído a Millor, mas vai saber) – a qual eu imaginei indo rezar vestindo flores. a última colagem escorregou e entrou, embora não pertença à ideia de se manter a mesma de trás pra frente.

tem também uma intenção de figura e fundo da imagem, além da direita pra esquerda da palavra. e terra e água. e luz e sombra. e um vício insistente de observar texto e contexto. e eu preciso confessar que gosto de vícios.

 

 

eu digo NÃO

a princípio emudeço, empalideço, perco a fome, a orientação
mas reajo e digo não
não à história
não à ditadura
não à mentira
não à manipulação.
eu digo basta aos desvios,
aos conluios,
aos esquemas, trapaças, mecanismos.
eu digo chega de miopia,
de dissimulação,
de exceções.
grito não a juiz parcial
imprensa parcial
mente parcial
gente parcialmente enfurecida;
chega de pacto,
de supremo, de tudo,
chega de acelera,
de usurpação da bandeira,
de camarote vip,
de fechamento de escola.
chega de narrativas deturpadas.
eu preciso dizer chega também
aos novos-ricos, aos que pensam ser diferenciados
aos que pensam que o esquema os beneficia
eu preciso dizer acordem, estúpidos
não é sobre vocês:
é sobre justiça
é sobre igualdade
é sobre liberdade.
é sobre todos nós.
não tem divisão,
lado,
não tem verde-amarelo que seja seu
ele é nosso.
não, mil vezes não à segregação,
à falta de bom senso
a tudo isso e mais um pouco do que a gente se tornou.
eu digo não ao sono profundo de ideias
eu grito não, repetidos nãos à falta de abertura.
não à ditadura, porra.