engasgo

o divino em mim se manifesta na garganta.
é onde tudo acontece.
se feliz, uma comichão,
irritada, um facão,
emocionada, um vulcão.
(não era intencional sair rima.)
o que passa é esse período mesmo, e vou falar:
tá mexido esse rio que sou.
começa tranquilo, ameno.
e depois um sem-fim de corredeiras:
ver o gil magro e inchado ao mesmo tempo.
ver meu pai com músculos fracos,
minha mãe com saudade de bordar por ter as mãos inflamadas
mas cantando sempre, aquele sopro com cheiro de mãe.
e a voz da etta james na outra noite, um louvor e novamente minha garganta coça.
então celebro a nova escola do joão,
novas aulas da fernanda,
as colagens todas dessa travessia.
mas agosto chega, tem summer olympics, ó que alvoroço de abertura
preciso ouvir uns “até que fizemos bonito”
(…)
minha garganta arde, fica em chamas.
se descobre toda uma indignação que vinha tentando cobrir
fazendo força para disfarçar
uma ira de ver os que acham que o Brasil é menos
enquanto eu sei, eu sei de forma ancestral
que ele é mais.
por que a pira olímpica faz isso,
por que?
por que os juízes não promovem justiça?
por que tem horas que eu só queria gritar até esgarçar
e ficar como naqueles sonhos terríveis
que precisa voz mas ela não sai.
que a garganta falha.
minha prece – prestem atenção, deuses
emana da garganta,
habita nela
e é por ela.

meu broda

como eu poderia explicar.
para mim, parece que o Brasil é uma pessoa. mais que isso, uma pessoa da família.
alguém que eu gosto muito, além de qualquer defeito ou mancada (me disseram outro dia que gostar de alguém cheio de qualidades é fácil. é bonito. atrever-se a gostar de alguém e aceitar seus defeitos é que são elas. tive que concordar).
então o lance é que eu amo o Brasil de verdade. não dá para explicar, é uma coisa do sentir.
e nesses dias estou sofrida. machucada mesmo, uma desolação que se assemelha a falta de uma pessoa querida. uma frustração ou pena, sei não. uma revolta como se houvera um sequestro, uma amputação, um golpe seco. um golpe, é.
agora – e o que eu faço com isso? o que vai me fazer reagir? ah me dá uma preguiça lamentar assim. mas não tenho a mais puta ideia de como sair dessa.
tendo paciência, achando um sentido, lutando. ouvi isso.
então um pedido: se alguém achar o prumo, por favor me apresenta.
embora eu tenha dúvida se vai adiantar, porque quem salva a gente é a gente mesmo.
faz assim, esquece esse post, finge que não existiu.
 

imagem_ rebecca mock

faltam palavras

sabe, hoje eu vivo do que escrevo.
esse é meu ofício, meu prazer também.
e não estou conseguindo escrever sobre o que tenho testemunhado – essa situação toda mesmo, estou falando das trevas, dos conluios, dos atalhos políticos e éticos de uma nação inteira.
não me considero muito capaz porque só me vem uma palavra: mofo.
é, eu sinto até o cheiro.
posso percebê-lo nas dobras, nas rugas dos deficientes que estão a minha volta.
a maioria é surda e engasgada de si, não consegue nem ouvir a resposta à saudação, quando há saudação porque geralmente chove alaga inunda racha estoura escapa transborda de histórias próprias e vazias, ornadas de solidão.
um milhão de pessoas sozinhas, mofadas e encardidas é o que vejo.
mofadas em seus carros blindados, mofadas em suas roupas aparentemente chiques que escondem etiquetas de origem obscura com costuras mal feitas. discursos mofados, pegajosos. filhos mofadinhos, escolas mofadas, aplicativos mofados, máquinas com cápsulas mofadas.
jantares cheirando a mofo, estradas com mofo no acostamento.
paredes inteiras condenadas a ruir nas organizações, todas mofadas de cima a baixo. obras craqueladas de mofo, embargadas pelo senhor doutor do gabinete.
dentes esverdeados de mofo, hálito mofado, diplomas cobertos por uma película de mofo.
jornais esfarelando em cada virada de página, corroídas pelo mofo.
tem mofo pairando até sobre a copa das árvores no Ibirapuera.
só vejo isso. isso é o que vejo.
e sinto minha visão – coitada, já passou até pela intervenção de um laser quente pontiagudo – turva, indefinida. possivelmente cheia, ela também, de mofo no cristalino.
não me sinto parte da turma dos deficientes, não acredito em verdades absolutas. não quero o retrocesso, mas tampouco carrego uma bandeira pelas ruas ou tenho tatuados gritos de luta na garganta. nada.
não sinto o cheiro de mofo no meu corpo, mas também não sou secundarista ou ativista.
choro sentada na minha cadeira antiga, olhando para a parede, perdida.
a saída seria trocar a praga do mofo que vejo em toda parte por uma outra forma de vida.
algo esguio, com galhos e folhagem, que subisse pelo muro e elevasse-me daqui, do meu próprio sentimento de estagnação.
da estagnação de uma era para uma era de elevação.
para uma nação elevada.
que venha. te espero.
sua,
ap

ps. ou troque tudo por arre, estou farto de semideuses! faz favor, releia poema em linha reta do fernando pessoa deuso. muso eterno. e durma bem.

 

imagem_ pessoasempre