viver colando [palavras]

busco vários motivos para viver colando. um deles é o texto. palavras me motivam. quis brincar com palíndromos, essas palavras ou frases que podem ser lidas da direita pra esquerda ou da esquerda para a direita. estudando o palíndromo, descobri uma técnica literária chamada escrita constrangida, o que, pode acreditar, fez esquentar minhas maçãs do rosto. mas isso é assunto para outro texto.

aqui as colagens para os palíndromos luz azul e assim a aia ia à missa (atribuído a Millor, mas vai saber) – a qual eu imaginei indo rezar vestindo flores. a última colagem escorregou e entrou, embora não pertença à ideia de se manter a mesma de trás pra frente.

tem também uma intenção de figura e fundo da imagem, além da direita pra esquerda da palavra. e terra e água. e luz e sombra. e um vício insistente de observar texto e contexto. e eu preciso confessar que gosto de vícios.

 

 

fome de que

é um cenário desolador. este, aqui, agora.
o que passa é que em junho de 2013 tudo mudou – e não me refiro (apenas) as jornadas de junho, aos movimentos da rua e tudo que veio a partir dali. talvez como um sinal dos tempos, naquele mesmo junho eu dei um duplo twist carpado e deixei para trás um trabalho estável e desenhado para durar.

um trabalho que me dava dinheiro certo, férias remuneradas, um título, cartão de visita timbrado e 150 anos de tradição. é, eu trabalhava numa empresa suiça e não posso negar que sinto saudade dos alpes.

olhando de onde estou hoje, sou grata. aprendi um monte. conheci pessoas, países, metodologias; estudei, ousei, errei, brilhei. uma trajetória, enfim, como muitas. eu fazia parte da bourgeoise, do grand monde, eu era gestora, vejam vocês.

acontece que não. eu não sou nem nunca fui burguesa. eu sou mineira, pessoa do interior, sem capital, sem herança. minha praia sempre foi apreciar a natureza, viver em respeito à ela, tentando aprender a ser simples como ela. não que a cidade e suas intrincadas relações não me interessem, ao contrário, cedo na vida eu escolhi viver no maior caos urbano.

e daí? o que está pegando então? pega que eu mudei toda a estrutura para poder me dedicar às três palavras coladas acima. pelo quinto ano eu as reforço: comunicação, arte e educação. é isso. são elas, elas que me guiam. assim como na etapa anterior, eu novamente não tenho clareza absoluta do como. como me estabelecer e me realizar apoiada nestes eixos. eu briguei muito na experiência pregressa, quando queriam delinear para mim uma carreira. eu nunca me dediquei a isso, não me dedico agora e não sei o próximo passo. me orgulho muito dessa insubordinação, ao mesmo tempo que tenho dor de barriga quando penso no amanhã.

e em períodos como este eu chego a duvidar da escada invisível, eu juro que desconfio que os degraus irão se formar enquanto eu me mover. como experimentar um sentimento oceânico numa sociedade adoecida da maneira que a nossa está?

paro por aqui. não pensei num manifesto pessimista. pensei na minha fome e nos alimentos que busco. por que se não os anuncio, como eles irão me encontrar?