crap noir_arquivado

com quantos nãos se constrói o abandono
de que substancia é feita a despedida
que imagem irresoluta é essa que carrego
dentro de mim.
procuro, me espanto, sinto o dessabor.
era tanto e era logo.
e logo contaminamos.
faltou cantar?
perdemos contorno, contato?
olhei calado a porta se fechar.
admirei o céu, a cerração.
a gente virou caso encerrado.

[crap noir é uma série de fotolivros da fotógrafa e companheira de todas as horas Giovana Pasquini, que me convidou para escrever contos a partir de suas imagens.]

crap noir_no escuro

alguma coisa escapava e não conseguia saber o que era.
o ritmo dissonante da passagem do tempo?
a rua proibida estava se tornando mais reconhecível,
mas certo era que algo sempre dava errado naquele lugar.
começou a ouvir um som distante, um uivo talvez?
sim, era definitivamente um uivo.
tentou andar, não conseguia. sentiu um hálito quente.
se esforçou pra correr, embora não saísse do lugar.
uma escuridão tomou conta.
acordou.
estava ensopada de suor.
abriu os olhos, esfregou-os com força, mas aceitou:
não enxergaria nunca mais.

[crap noir é uma série de fotolivros da fotógrafa e companheira de todas as horas Giovana Pasquini, que me convidou para escrever contos a partir de suas imagens.]

crap noir_strange

outro dia que nasceu para ser banal como todos os outros.
sai e você estava no banho, não me despedi.
cruzei com multidões, venci túneis, lembrei da gente bebendo
e ouvindo people are strange.
vi um grupo de poucos gritar protestos soltos.
vi a tarde cair
vi uma navalha.
senti um gosto de sangue na boca.
não sei se foi delírio ou por que me lembrei de ontem à noite.

[crap noir é uma série de fotolivros da fotógrafa e companheira de todas as horas Giovana Pasquini, que me convidou para escrever contos a partir de suas imagens.]