corpo político-sensível

dia 11 de março foi um dia daqueles. depois de uma série de três encontros do projeto corpo político, corpo sensível, aconteceu uma intervenção para celebrar as trocas e aprendizados de todas nós sobre a presença poética e política da mulher no espaço público. o que posso dizer? expressar em palavras? acho que elas não dão conta do sentido fundo que senti. ou só por agora ainda não dão, pois é preciso tempo para encaixar tudo por dentro. é certo que experimentei coisa demais, sensações novas, um estar feminino, um lugar de fala seguro, uma ocupação da rua e de outros espaços, daqueles que não posso passar coordenadas precisas. um monte de gratidão, realização, compreensão, muitos ãos, essa é a verdade.

além das fotos do dia 11, divido aqui também o exercício-observação que fiz para o primeiro encontro, em outubro do ano passado.

Dia 18 de outubro, terça.
Acordo pensando no nascimento do Romeu, filho da minha amiga mais antiga, minha amiga de infância, minha irmã de rua. Tudo corre bem mas meu coração fica agitado mesmo assim.
Fico em casa, trabalho num roteiro, vou buscar meu mac que travou e estava no hospital dos macs.
Penso na reunião de nome intrigante que vai rolar à noite: encontro corpográfico.

***

Saio de casa para ir ao encontro.
No caminho para o ponto de ônibus, paro no boteco/restaurante/padoca, esse local tão paulista, para comer algo. A música rolando é um sertanejo. Peço um croissant de quatro queijos e uma média. Penso que sou grata aos portugueses por terem sido eles a miscigenar nossa terra e não os espanhóis, mas que uma coisa eu admito ser mais legal em espanhol: chamar croissant de media luna.
Penso de novo que o Romeu nasceu – e eu?
Entro no ônibus.
Coloco o novo álbum do Sabotage, lançado no dia anterior, 13 anos após ele ter sido assassinado.
Bang bang.
Ônibus é um evento, antes de tudo: sala de trabalho, happy hour, recarga pro celular.
E a Zona Sul viaja no corredor rumo à Bandeira.
Vou olhando pela janela. Pedaços de luz chegam em mim. As pessoas, não.
Nove de Julho foi uma revolução. Necessidade atual: evolução.
Todos verão o horário de verão.
Minha garganta dói.


Pixo, lambe, letreiro, placas
Sinalização, anúncios
Respiro.
Mais placas, fones de ouvido
Coques, tattoos, bonés
Expiro.
Prédios espelhados, túnel,
Malditos fios e um pixo:
Noiva, não case virgem.
Inspiro.
O dia vai escapando,
Mais um.
Menos um.

beirando o ano

na beirada do ano eu olhei minha família e me vi em mil folhas.
contemplei o atlântico e ouvi barulhos de pensar em planos futuros.
eu vi peixes listrados duplicados de tamanho através daquele efeito amplificador das lentes,
senti meu corpo tremular na água salgada e meu olho ardeu como gengibre.
eu mandei manipular fórmulas, e vi me manipularem na minha cara e sem pudor, sem nem poesia.
eu deixei de encarar multidões, deixei de estudar aulas e de exercitar músculos, eu deixei só para ver como é.
arrumei prateleiras e cantei palavras inventadas.
eu troquei coisas de lugar e acordei lembrando de sonhos – os sonhos insistem em me banhar de estrelas.
li dois livros entre as estradas interestaduais, e comecei outro, e nesse avisto as veredas.
eu olhei fotos de mulheres vulgares e fiquei com vontade de ser uma delas.
quero muito apalpar isso e aquilo que não sei
quero histórias.

bienal_o sal de anawana

sabe onde fica a Zambia? nem eu sabia. faz fronteira com Namíbia, Zimbábue e Angola. é uma república nova, independente do Reino Unido desde 1964. antes disso, seu nome era Rodésia do Norte. é de lá a artista Anawana Haloba, que conheci na Bienal.

sua obra aqui chama-se Close up. são cubos de sal suspensos, que se liquefazem e gotejam. eu já tinha visto paredes de sal no deserto, mas vem cá: você imagina cubos coloridos de sal içados no escuro com bacias abaixo deles cheias de água que pinga de pedras que não são pedras e que deixarão de existir ao final da exposição?

entro numa sala assim e saio de lá meio líquida, eu. é uma simplicidade brutal, sal, água, bacias – unida ao testemunho de uma transformação. uma transformação lenta, inevitável. poética, creio. lendo sobre a obra outros significados se somam, claro: ideologia, contexto histórico, simbologia. para mim fica o sal. o vital, o essencial. o sal que nos iguala a todos.

li ainda que ela escreve poemas, mas não consegui encontrar nenhum para dividir aqui. acho que são componentes de obras, como vídeos, fibra de vidro, sal.

a artista tem minha idade e vive em Oslo.

e está aqui na cidade e é imperdível e é grátis.

imagens_ universeskaja leijon, worldflags