no consultório

esta semana eu fui à ginecologista, a clássica consulta anual.
como recentemente mudei de plano de saúde, precisei buscar um novo profissional. não pedi referência a ninguém, apenas consultei o catálogo do plano e escolhi por critérios simples (distância da minha casa, por exemplo).
cheguei, sentei, esperei.
entrei. ela me cumprimentou da cadeira.
olhando para o computador, me disse que faria algumas perguntas:
“toma algum remédio”, “tem doenças na família”, sente alguma dor ou desconforto”, “fuma”, “alérgica a algo” e mais outras.
depois de entender que era apenas uma consulta de rotina, disse que pediria alguns exames.
digitou, digitou.
imprimiu três guias de exames.
me entregou e acenou com a cabeça um “ok, é isso”.
confusa, eu franzi a testa e perguntei: “você não vai me examinar?”
e ela me arremessa a bomba:
“se você quiser, eu posso”.

ca-ra-lho. mil caralhos voadores.
a vontade era dizer: sim, sonhei com você duas vezes essa semana, não via a hora de sentir seu espéculo na minha xoxota, mas ao invés disso pus aquele roupão descartável ridículo e abri minhas entranhas para a doutora.

pensei várias possibilidades: a médica me achou saudável por fora e desencanou de olhar por dentro, confiou 200% na minha palavra de não sentir dor, acha úteros órgãos muito feios, não curte pequenos, curtos ou grandes lábios, é preguiçosa.
não cheguei a conclusão alguma (exceto de que não volto mais lá), mas fiquei bolada: um médico que pergunta ao paciente se ele quer ser examinado. é isso mesmo que está rolando no mundo?

minha mãe diz que não se encontra mais médicos como antigamente. é foda de triste, mas nesta semana tive que concordar com ela.

foto_ simone badana

me lambe lá

essas coisas de lambe-lambe, colagem, intervenção urb…
espera, hoje a lambida é outra.
me apresentaram essa música da karol conka e eu estou passada. chapei. ‘direitos de prazer iguais, mais compreensão’, ‘curvem-se, encostem os lábios na flor’.
‘me lambe, me dê uma lambida lá’.
sem mais.

corpo político-sensível

dia 11 de março foi um dia daqueles. depois de uma série de três encontros do projeto corpo político, corpo sensível, aconteceu uma intervenção para celebrar as trocas e aprendizados de todas nós sobre a presença poética e política da mulher no espaço público. o que posso dizer? expressar em palavras? acho que elas não dão conta do sentido fundo que senti. ou só por agora ainda não dão, pois é preciso tempo para encaixar tudo por dentro. é certo que experimentei coisa demais, sensações novas, um estar feminino, um lugar de fala seguro, uma ocupação da rua e de outros espaços, daqueles que não posso passar coordenadas precisas. um monte de gratidão, realização, compreensão, muitos ãos, essa é a verdade.

além das fotos do dia 11, divido aqui também o exercício-observação que fiz para o primeiro encontro, em outubro do ano passado.

Dia 18 de outubro, terça.
Acordo pensando no nascimento do Romeu, filho da minha amiga mais antiga, minha amiga de infância, minha irmã de rua. Tudo corre bem mas meu coração fica agitado mesmo assim.
Fico em casa, trabalho num roteiro, vou buscar meu mac que travou e estava no hospital dos macs.
Penso na reunião de nome intrigante que vai rolar à noite: encontro corpográfico.

***

Saio de casa para ir ao encontro.
No caminho para o ponto de ônibus, paro no boteco/restaurante/padoca, esse local tão paulista, para comer algo. A música rolando é um sertanejo. Peço um croissant de quatro queijos e uma média. Penso que sou grata aos portugueses por terem sido eles a miscigenar nossa terra e não os espanhóis, mas que uma coisa eu admito ser mais legal em espanhol: chamar croissant de media luna.
Penso de novo que o Romeu nasceu – e eu?
Entro no ônibus.
Coloco o novo álbum do Sabotage, lançado no dia anterior, 13 anos após ele ter sido assassinado.
Bang bang.
Ônibus é um evento, antes de tudo: sala de trabalho, happy hour, recarga pro celular.
E a Zona Sul viaja no corredor rumo à Bandeira.
Vou olhando pela janela. Pedaços de luz chegam em mim. As pessoas, não.
Nove de Julho foi uma revolução. Necessidade atual: evolução.
Todos verão o horário de verão.
Minha garganta dói.


Pixo, lambe, letreiro, placas
Sinalização, anúncios
Respiro.
Mais placas, fones de ouvido
Coques, tattoos, bonés
Expiro.
Prédios espelhados, túnel,
Malditos fios e um pixo:
Noiva, não case virgem.
Inspiro.
O dia vai escapando,
Mais um.
Menos um.