fome de que

é um cenário desolador. este, aqui, agora.
o que passa é que em junho de 2013 tudo mudou – e não me refiro (apenas) as jornadas de junho, aos movimentos da rua e tudo que veio a partir dali. talvez como um sinal dos tempos, naquele mesmo junho eu dei um duplo twist carpado e deixei para trás um trabalho estável e desenhado para durar.

um trabalho que me dava dinheiro certo, férias remuneradas, um título, cartão de visita timbrado e 150 anos de tradição. é, eu trabalhava numa empresa suiça e não posso negar que sinto saudade dos alpes.

olhando de onde estou hoje, sou grata. aprendi um monte. conheci pessoas, países, metodologias; estudei, ousei, errei, brilhei. uma trajetória, enfim, como muitas. eu fazia parte da bourgeoise, do grand monde, eu era gestora, vejam vocês.

acontece que não. eu não sou nem nunca fui burguesa. eu sou mineira, pessoa do interior, sem capital, sem herança. minha praia sempre foi apreciar a natureza, viver em respeito à ela, tentando aprender a ser simples como ela. não que a cidade e suas intrincadas relações não me interessem, ao contrário, cedo na vida eu escolhi viver no maior caos urbano.

e daí? o que está pegando então? pega que eu mudei toda a estrutura para poder me dedicar às três palavras coladas acima. pelo quinto ano eu as reforço: comunicação, arte e educação. é isso. são elas, elas que me guiam. assim como na etapa anterior, eu novamente não tenho clareza absoluta do como. como me estabelecer e me realizar apoiada nestes eixos. eu briguei muito na experiência pregressa, quando queriam delinear para mim uma carreira. eu nunca me dediquei a isso, não me dedico agora e não sei o próximo passo. me orgulho muito dessa insubordinação, ao mesmo tempo que tenho dor de barriga quando penso no amanhã.

e em períodos como este eu chego a duvidar da escada invisível, eu juro que desconfio que os degraus irão se formar enquanto eu me mover. como experimentar um sentimento oceânico numa sociedade adoecida da maneira que a nossa está?

paro por aqui. não pensei num manifesto pessimista. pensei na minha fome e nos alimentos que busco. por que se não os anuncio, como eles irão me encontrar?

ali babá e os 40

o que é, na verdade, fazer 40?

é olhar para o futuro? é pegar uma cadeira de praia, sentar relaxada e repassar o passado? ou tomar uns goles de água, contemplar o agora e agradecer que chove em todo solstício?

nunca um mistério tão grande me acercou assim. nunca um dezembro me fez tremer, literalmente tremer como este. outros teores, nenhuma teoria. escavações sem plano, sonhos balançando como roupas no varal. o que pertence, o que contém, quantas bifurcações cabem, qual o nível de açúcar, que beijos resistem.
que timbre tem uma sensação, como medir o tanto que vibra? que eco ainda não voltou?

sei pouco, vejo apenas os presentes:
palavras de galeano, folhagens desenhadas, entidades das profundezas do mar.
música que cantamos juntos.
papéis, mapas, uma mapoteca secular.
um copo cheio de minas gerais – sempre ela, um sopro vindo de onde um dia ainda vou voltar.
uma ceia sem hora pra terminar.
palavras e sonhos anotados. a lembrança que desejo bom mesmo seria entender toda e qualquer língua.
não me canso, não me cansarei, não posso parar de querer.
querer bem. querer e sonhar.

 

eu_euforia

escolher palavras para contar o significado da música para um ser pode tomar uma vida. talvez muitas vidas. já pesquisou sobre esse assunto? dizem que a música é uma janela de conhecimento plena, abrindo a maior quantidade de possibilidades. outros dizem não saber onde a música acontece no cérebro, e tenho pra mim que nunca descobrirão, simplesmente  por que ela não acontece lá. é de uma natureza diferente, não-física, não explicável.

este ano eu comecei a cantar. não chego nem perto de achar uma descrição. sou incapaz de expressar a sensação que causa. penso só que me deixa mais poderosa, mais viva, mais conhecedora das outras sensações que sinto. muito, infinitamente melhor que usar qualquer droga. e tem ainda a questão original: minha mãe. uma mulher que possui a voz que é um hino e que me habita desde que existe memória em mim. cantar é, de alguma forma, continuá-la.

o registro abaixo foi feito pelo João no flash mob que participei no começo deste mês (ah, dezembro!) com outras centenas de integrantes do Coral USP, o qual faço parte.

pensa numa pessoa radiante.

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