escrever memórias

entre janeiro e fevereiro deste ano participei de uma série de encontros da oficina de escrita da memória, realizada pela querida Giselle Rocha no Museu da Pessoa.

depois da experiência de dividir memórias no círculo de histórias, todos redigem, todos editam. ao final, temos um livro, o qual ilustrei a capa.
lá estão histórias sobre a infância, a família, o amor e sobre ser.

meu texto, como microcontos nascem, conta de uma memória recente, uma memória que está ainda sendo desenhada e, espero, defina meu ser. meu ser-estar nesse espaço-tempo.

 

 

eu digo NÃO

a princípio emudeço, empalideço, perco a fome, a orientação
mas reajo e digo não
não à história
não à ditadura
não à mentira
não à manipulação.
eu digo basta aos desvios,
aos conluios,
aos esquemas, trapaças, mecanismos.
eu digo chega de miopia,
de dissimulação,
de exceções.
grito não a juiz parcial
imprensa parcial
mente parcial
gente parcialmente enfurecida;
chega de pacto,
de supremo, de tudo,
chega de acelera,
de usurpação da bandeira,
de camarote vip,
de fechamento de escola.
chega de narrativas deturpadas.
eu preciso dizer chega também
aos novos-ricos, aos que pensam ser diferenciados
aos que pensam que o esquema os beneficia
eu preciso dizer acordem, estúpidos
não é sobre vocês:
é sobre justiça
é sobre igualdade
é sobre liberdade.
é sobre todos nós.
não tem divisão,
lado,
não tem verde-amarelo que seja seu
ele é nosso.
não, mil vezes não à segregação,
à falta de bom senso
a tudo isso e mais um pouco do que a gente se tornou.
eu digo não ao sono profundo de ideias
eu grito não, repetidos nãos à falta de abertura.
não à ditadura, porra.

fome de que

é um cenário desolador. este, aqui, agora.
o que passa é que em junho de 2013 tudo mudou – e não me refiro (apenas) as jornadas de junho, aos movimentos da rua e tudo que veio a partir dali. talvez como um sinal dos tempos, naquele mesmo junho eu dei um duplo twist carpado e deixei para trás um trabalho estável e desenhado para durar.

um trabalho que me dava dinheiro certo, férias remuneradas, um título, cartão de visita timbrado e 150 anos de tradição. é, eu trabalhava numa empresa suiça e não posso negar que sinto saudade dos alpes.

olhando de onde estou hoje, sou grata. aprendi um monte. conheci pessoas, países, metodologias; estudei, ousei, errei, brilhei. uma trajetória, enfim, como muitas. eu fazia parte da bourgeoise, do grand monde, eu era gestora, vejam vocês.

acontece que não. eu não sou nem nunca fui burguesa. eu sou mineira, pessoa do interior, sem capital, sem herança. minha praia sempre foi apreciar a natureza, viver em respeito à ela, tentando aprender a ser simples como ela. não que a cidade e suas intrincadas relações não me interessem, ao contrário, cedo na vida eu escolhi viver no maior caos urbano.

e daí? o que está pegando então? pega que eu mudei toda a estrutura para poder me dedicar às três palavras coladas acima. pelo quinto ano eu as reforço: comunicação, arte e educação. é isso. são elas, elas que me guiam. assim como na etapa anterior, eu novamente não tenho clareza absoluta do como. como me estabelecer e me realizar apoiada nestes eixos. eu briguei muito na experiência pregressa, quando queriam delinear para mim uma carreira. eu nunca me dediquei a isso, não me dedico agora e não sei o próximo passo. me orgulho muito dessa insubordinação, ao mesmo tempo que tenho dor de barriga quando penso no amanhã.

e em períodos como este eu chego a duvidar da escada invisível, eu juro que desconfio que os degraus irão se formar enquanto eu me mover. como experimentar um sentimento oceânico numa sociedade adoecida da maneira que a nossa está?

paro por aqui. não pensei num manifesto pessimista. pensei na minha fome e nos alimentos que busco. por que se não os anuncio, como eles irão me encontrar?