pelas veredas de guima

nonada.
Guimarães tem hora. a minha chegou.
eu ainda não era ainda.
foram oito meses de travessia.
2/3 do ano atravessando os grandes sertões, conhecendo cada mato, planta e buritizal das gerais.
andei com jagunço, ri de bobéias, pitei olhando a lua.
conheci das coisas simples e das profundas com os catrumanos, dansei em encruzilhadas frias. vi o diabo pela greta, mas tive certeza que vi ele sim.
pensei muito naquele senhor ouvinte.
o senhor sabe o que o silêncio é? é a gente mesmo, demais.
aprendi a respeitar Hermógenes.
parava de ler por uns tempos, para desendoidecer de tanta prosa poesia profunda travestida de simpleza. nessas horas era eu que caçava cobertor pra me cobrir o friúme na alma. pelejei para entender algumas passagens que ainda agora não entendo, e outras, sinto passarem dentro de mim como um fiapo de rio, tranquilo de seu caminho, límpido, líquido, natural.
ser forte é parar quieto, permanecer.
mais que apreciar a sofisticação rústica de Tataranas e Diadorins e compadre meu Quelemém, passei a olhar – olhar não, sentir a língua com mais bondade, acho que é isso, ou outra coisa que não sei precisar ainda. permitir, apreciar, abrir lugar para uma fala que existe e que tem espaço, sim.
e que não tem erro, não.
como é que foi para você quando adentrou as veredas?
travessia.

no consultório

esta semana eu fui à ginecologista, a clássica consulta anual.
como recentemente mudei de plano de saúde, precisei buscar um novo profissional. não pedi referência a ninguém, apenas consultei o catálogo do plano e escolhi por critérios simples (distância da minha casa, por exemplo).
cheguei, sentei, esperei.
entrei. ela me cumprimentou da cadeira.
olhando para o computador, me disse que faria algumas perguntas:
“toma algum remédio”, “tem doenças na família”, sente alguma dor ou desconforto”, “fuma”, “alérgica a algo” e mais outras.
depois de entender que era apenas uma consulta de rotina, disse que pediria alguns exames.
digitou, digitou.
imprimiu três guias de exames.
me entregou e acenou com a cabeça um “ok, é isso”.
confusa, eu franzi a testa e perguntei: “você não vai me examinar?”
e ela me arremessa a bomba:
“se você quiser, eu posso”.

ca-ra-lho. mil caralhos voadores.
a vontade era dizer: sim, sonhei com você duas vezes essa semana, não via a hora de sentir seu espéculo na minha xoxota, mas ao invés disso pus aquele roupão descartável ridículo e abri minhas entranhas para a doutora.

pensei várias possibilidades: a médica me achou saudável por fora e desencanou de olhar por dentro, confiou 200% na minha palavra de não sentir dor, acha úteros órgãos muito feios, não curte pequenos, curtos ou grandes lábios, é preguiçosa.
não cheguei a conclusão alguma (exceto de que não volto mais lá), mas fiquei bolada: um médico que pergunta ao paciente se ele quer ser examinado. é isso mesmo que está rolando no mundo?

minha mãe diz que não se encontra mais médicos como antigamente. é foda de triste, mas nesta semana tive que concordar com ela.

foto_ simone badana

me lambe lá

essas coisas de lambe-lambe, colagem, intervenção urb…
espera, hoje a lambida é outra.
me apresentaram essa música da karol conka e eu estou passada. chapei. ‘direitos de prazer iguais, mais compreensão’, ‘curvem-se, encostem os lábios na flor’.
‘me lambe, me dê uma lambida lá’.
sem mais.